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[Resenha] Nada Ortodoxa- Debora Feldman @intrínseca

"Nada Ortodoxa" é um lançamento da editora intrínseca publicado originalmente em 2012, aqui no Brasil teve sua estreia agora em 2020, uma obra incrível criada a partir das memórias de Deborah, a experiência de leitura foi para além do que eu imaginei ser, me colocou dentro de uma cultura totalmente diferente, uma religião completamente controversa da que fui criada, me proporcionou alguns ensinamentos valiosos que irei carregar para toda a vida, espero que gostem da resenha!


Sinopse: Deborah Feldman cresceu sob um código de costumes rígidos, que regulavam praticamente tudo que dizia respeito à sua vida, desde o que ela poderia vestir e com quem poderia falar, até o que lhe era permitido ler. Integrante de um grupo de judeus hassídicos — corrente ultraortodoxa da religião — e criada pelos avós, cuja lealdade às tradições muitas vezes intrigava a mente curiosa da jovem, Deborah escondia volumes de Jane Austen e Louisa May Alcott para imaginar uma vida alternativa entre os arranha-céus de Manhattan. Ao fim da adolescência, submetida a um aspecto comum a diversas tradições conservadoras, Deborah se vê presa em um casamento disfuncional com um homem que mal conhece. O isolamento e a intransigência da comunidade deixam o jovem casal despreparado para o relacionamento, bem como para as responsabilidades paternas que se seguem. Quando consegue enfim se afastar do bairro onde sempre morou e organizar uma rotina com algumas liberdades, a tensão entre os desejos e os compromissos religiosos de Deborah aumenta. Até que, farta de ver o marido colocar a estrita observância da tradição acima do bem-estar da família, ela decide abandonar tudo que um dia chamou de vida. Skoob

Deborah Feldman teve uma infância conturbada seus pais se divorciaram, sua mãe foi acusada de abandoná-la e seu pai tinha muitos problemas psicológicos, era renegado por ela e por toda sua família, o casamento de seus pais foi arranjado como o de todos em sua cultura religiosa, eles não se conheciam, não se gostavam e foram casados mesmo assim, tiveram uma filha e muitos problemas. Tudo isso resultou no fim do relacionamento e Deborah (Mamaleh) teve sua criação decidida por uma tia que segundo ela não era da família por não ter o sangue deles. Chaya decidiu que a menina ficaria com os avos paternos e seria melhor para ela ser criada por eles e supervisionada por ela.
"Quando eu era pequena, lembro que minha mãe costumava ler para mim na hora de dormir, histórias sobre lagartas comilonas e sobre Clifford, o gigante cão vermelho. Na casa da Bobe, os únicos livros á vista são livros de orações. Antes de dormir, recito o Shemá"Pág.17
Sua formação se deu em uma comunidade Judaica Hassídica firmada no Brooklin, toda sua família e o povo deles em sí criaram uma espécie de cultura rigorosa e se isolaram do restante do mundo, eles acreditavam que foram punidos por Deus quando Hitler fez o que fez e teve como principal alvo os judeus, para que isso nunca mais se repetisse eles deveriam dedicar-se integralmente a sua religião de sacrifícios e regras religiosas das mais severas possíveis de se imaginar. Boa parte da vida de Feldman se deu nesse ambiente hostil, repleto de regras e costumes rígidos demais, muitas vezes inaceitáveis porém era sua cultura, sua família a única vida que ela fora apresentada, a aceitação é obvia.


Durante sua adolescência ela procurava obedecer as ordens e tradições de seus avos e tia, essa que por sua vez fazia questão de controlar cada centímetro da existência da jovem, Chaya estava sempre pronta para apontar algum erro ou defeito da de Deborah era triste as atitudes da tia que acabou substituindo o lugar de sua mãe, ela sabia que no fundo a tia não gostava de verdade dela, só estava tentando salvar a imagem da família que já tinha sido muito manchada pelo divórcio de seus pais e pela loucura do pai em sí.


Na escola as coisas não eram muito diferentes, sua educação foi estruturada na religião, ela não tinha contato com conteúdos que fugiam a seu estilo de vida, na escola que era para ser um lugar alegre onde ela fosse aprender coisas novas que lhe agregassem valor no futuro o sentimento era completamente o oposto, um lugar triste sem vida e repleto de mais regras e rigidez.

Deborah relata que sabia o que o futuro reservava para sí, quando completasse 17 anos seria destinada ao mesmo que todas as mulheres de seu meio, um casamento arranjado com algum homem que sua família considerasse adequado a ela, e esse homem foi Eli, quando completou a idade certa foi casada com ele, sem o conhecer, sem saber seus gostos, sem o amar. Nossa protagonista depois de uma tortuosa introdução a vida sexual teve um filho com Eli, seu casamento começou de um jeito forçado como se tivessem sido amaldiçoado pelo menos era isso que ela pensava, entretanto fez de tudo para fazer dar certo, seguiu todas as tradições absurdas impostas pela religião, todos os costumes e horrores que a humilhavam e a degradavam todos os dias cada vez mas.


Nem assim o casamento vingou, após muito tempo ela percebeu que poderia ter algo melhor do que aquilo que possuía, ela já não conseguia mais forçar nada com o marido, passou por muitas provações durante todos aqueles anos que percorreu disposta a aceitar sua vida e seu destino, e finalmente percebeu que poderia se libertar, soube anos mais tarde que sua mãe não era louca como a tia havias dito e sim gay, algo inaceitável em sua cultura. Ela começou a estudar e conviver com outras pessoas fora daquele mundo, e finalmente se sentiu viva.

"Se somos forçados a confrontar nossos medos no dia a dia, eles se desintegram, como ilusões analisadas de perto."

Deborah Feldman passou por tantas dores que foi difícil acompanhar seu relato e não se emocionar, uma jovem criada por pessoas frias mais que eram sua família a única coisa que tinha, era o único mundo possível a ela, por tantas vezes durante a leitura me coloquei em seu lugar e não posso imaginar como foi duro viver assim.

"Não me sinto amada. Não só por meus pais, mais também pelas pessoas que me rejeitam por ser sua prole, e por minhas tias e meus primos, que me menosprezam porque sou prova de um escândalo na família, porém, mais do que tudo, sinto que não sou amada por Deus que foi quem me pôs nesse mundo e depois se esqueceu de mim"

Nada Ortodoxa é um livro para se pensar, se questionar, nos faz refletir muito sobre quem somos, sobre a maneira como fomos criados, nos causa dúvidas sobre as pessoas que nos cercam, a leitura nos ensina a respeitar mais não aceitar tudo que for conveniente para a religião porque no final o que deve prevalecer é nossa dignidade enquanto seres humanos. Acompanhar a trajetória da personagem foi algo marcante, doloroso, enriquecedor e muito assustador. Não consigo imaginar uma tradição cultural tão ofensiva para mulher, o relato de Feldman foi intenso difícil de digerir, passagens como a de que ela sempre deveria ficar pura para satisfação plena do homem me incomodaram profundamente.

Aliás incômodo é uma palavra pertinente para descrever o que esse livro nos causa enquanto leitores, é um incômodo muito grande e extenso o que senti durante toda a leitura, confesso que algumas atitudes da própria Deborah me incomodaram, em relação aos seus sentimentos pelos pais, me frustrava toda vez que ela se referia a eles de forma rancorosa, porém é completamente compreensível devido a tudo que ela passou, as vezes tento enxergar além do que a leitura está me transmitindo, vejo o pai de Feldman como uma vítima de sua própria condição psicológica e que também precisava de ajuda, essa que lhe foi negada por toda a família por vergonha do que ele era, ajudá-lo seria admitir o problema e na cultura deles isso não poderia acontecer, em relação a sua mãe acredito que ela não era compreendida "abandonar" foi a maneira que ela encontrou de deixa-la ao seu modo de ver a salvo, todavia sabemos que isso não aconteceu de fato.

Como mencionei o livro traz uma história de vida que nos faz refletir sobre diversas questões, a psicológica é a maior de todas, muito presente na escrita da autora, que com coragem enfrentou tudo e todos da maneira que conseguiu em busca de uma vida melhor para sí e para o filho, Nada Ortodoxa é uma leitura sensível, delicada abordada de uma maneira interessante com um ponto de vista sincero, memórias de uma vida inteira nos transportam para a história, religião que cercavam essa mulher que hoje finalmente está livre.


Deborah Feldman relata que essa liberdade só se concretizou ao escrever este livro, ela menciona em seu primeiro livro que o processo de trazê-lo a realidade foi como se estivessem em limbo e quando o finalizou conseguiu se livrar de algo que a atormentava por tantos anos, foi criticada pela comunidade do judaísmo, a apontaram como algo terrível simplesmente por contar sua história de vida e expor de certo modo a maneira arcaica e muito incompreendida que a religião apresentava aos seus. Acredito que essa incompreensão se dá por serem tão rígidos se privando de sentimentos e vivendo de um modo que não compete com os dias atuais.

Também acredito ser válido mencionar que a cultura religiosa não trouxe danos apenas para Deborah enquanto mulher, durante algumas páginas do livro podemos ter a noção de como os rapazes eram criados e acreditem é tão obscuro quanto a criação das jovens, um total despreparo para vida adulta, criados de formas restritas são levados a pensamentos e atitudes herdadas de seus pais que ao meu ver como pessoa são completamente horrendas e desnecessárias.
Por fim quero deixar claro que essa resenha não traz de forma alguma algum tipo de preconceito com a religião aqui citada e que respeito cabe em qualquer situação, apenas relatei o que a biografia escrita pela autora me causou enquanto a lia. O intuito não é de forma alguma denegrir os judeus e suas culturas e tradições apenas expor meus sentimento diante de algo que é novo para mim e também expor o que entendi da história aqui apresentada.

Sobre a escrita da autora acredito que ela quis faze-la de forma cronológica desde de sua concepção até a fase adulta e liberta, característica que acredito auxiliar muito na compreensão de sua história de vida, ela foi sincera e abriu sua intimidade para o mundo atitude admirável e que merece nosso respeito. O livro possui uma adaptação recente no Netflix que irei assistir neste final de semana, espero que ela seja de certo modo fiel a história de Feldman.
Espero que tenham gostado da resenha, sintam-se a vontade para ler tirar suas próprias conclusões.

Xoxo

Título original: Unorthodox| Páginas: 303| Gênero: Biografia/Memórias| Editora: Intrínseca| Minhas Avaliação: 4/5| Comprar: Amazon

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Comentários

  1. Olá,
    O maior problema de religiosos fervorosos (de qualquer religião) é que eles não se adequam a sociedade atual, o que acaba causando um grande problema seja por costumes completamente ultrapassados, e/ou preconceitos que afetam a todos.
    Já tinha ouvido falar da adaptação e pela sua resenha parece estar bem parecida com o livro. Não sou muito fã de biografias, mas esta parece ser interessante pelo contexto.

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  2. Eu devo admitir que eu tenho um pé atras com livros sobre religiões porque morro de medo de ser um livro estereotipado, sabe? Eu não gostaria que fizessem isso com a minha religião e tenho medo de ler isso, mas eu ando vendo muitos comentários sobre o livro e sobre a adaptação também e dizem que é cheio de reflexões e seus comentários falando que o livro é bem forte me deram uma animada, eu ando precisando de leituras assim.
    Acho que vou dar uma chance, vou procurar o livro na amazon agorinha! Amei as fotos, ficaram perfeitas!!

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  3. Caramba, que livro, a resenha deixou sem fôlego, imagina a leitura. De fato um livro para pensar sobre nossa criação e esse choque com nosso verdadeiro eu.
    Já anotei a dica.
    Bjos

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  4. Oi Michelle!
    Não conhecia esse livro, mas realmente essas histórias nos chocam, nos fazem refletir e até mesmo nos rebelar quanta tamanha maldade da vida que uma pessoa passa e muitas vezes desacreditada diante de familiares. Sua resenha me deixou curiosa e quero muito ler esse livro, acompanhar a trajetória de Deborah. Obrigado pela dica, parabéns pela resenha, bjs!

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  5. Olá, tudo bem? Parece ser uma leitura bem intensa. Acho que livros do estilo tem essa finalidade né, de nos questionar, avaliar nossas vidas, e esse parece ser bem interessante. Fiquei curiosa para conhecer um pouco mais da vida dessa mulher, por isso dica mais que anotada! Ótima resenha e fotos.
    Beijos

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  6. Oii, vi a minissérie na Netflix e fiquei completamente instigada por não ter final, até, enfim, conseguir encontrar sua resenha maravilhosa. Quero muito saber se no livro, diferente da minissérie, a história tem um fim, ou avança de onde a série parou. Se no livro ela tem o bebê ou não, onde ela fica, etc. Ficaria muito grata se me respondesse com um e-mail! Muito obrigada!! Amei a resenha

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  7. Mi,
    Estou com esse livro na minha lista de desejados, ler sua opinião me fez ter a certeza de que quero ler. Acho que ele nos traz reflexão e amor livros que fazem isso comigo!

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